quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Qual o caminho para as surpresas de Deus?

Muitos caminham, mas nem todos percebem as delicadezas e as surpresas de Deus em seu caminhar

Todo caminho é uma ponte que nos liga ao próximo. Caminhar é preciso, porém há de se ter o cuidado necessário para contornar as pedras sem se ferir. É preciso a delicadeza de alma para contemplar as belezas da vida sem se perder de si mesmo. Cada passo é sempre uma oportunidade de fazermos do hoje o mais belo dia de se viver.


Muitos caminham, mas nem todos percebem as delicadezas e as surpresas de Deus em seu caminhar. Vivemos em uma sociedade altamente veloz. Tudo é muito rápido e, ao mesmo tempo, líquido. Estabelecemos relações de amizade que se desfazem com um clique. A vida está passando por nós e com ela os recados de Deus que se perdem em nosso tumultuado caminhar. É tempo de pararmos de correr e seguir a vida sem fazer do tempo o nosso inimigo.

Na maratona da vida, é necessário cultivarmos a delicadeza interior de parar para descobrirmos os recados de Deus. Há cada instante de nosso caminhar, o Senhor fala conosco. No entanto, é preciso que estejamos com o coração livre e aberto para acolhermos esta voz que se comunica conosco no cotidiano da vida.

Em cada acontecimento: alegre ou triste, trágico ou glorioso, Deus tem um recado para nós. Sábio será aquele que acolher com sensibilidade o sopro do Espírito Santo em seu coração. Como uma brisa suave, a voz de Deus chega mansamente à nossa alma. Longe do tumulto da vida, Ele se manifesta no silêncio da oração.

Não pensemos descobrir as surpresas de Deus em meio às agitações da vida. Será preciso redescobrirmos em nosso caminhar o tempo da oração. Colocar-se na presença do Senhor, despoluir a alma das agitações supérfluas e acolher o divino mensageiro que com Seu sopro de amor traz a voz serena e mansa de um Deus que se comunica sem pressa, mas no tempo que lhe oferecemos.

O caminho para as surpresas de Deus é fruto do silêncio que se alimenta de nossos tempos de oração. Parar um pouco e descansar a vida em Deus é deixar que Ele se revele a nós na serenidade por onde nossos passos estão a caminhar.

Ouvir a voz de Deus é descobrir no ordinário da vida o extraordinário. É contemplarmos a flor daquele jardim que floresce sem aplausos, mas louva o Senhor pela sua delicadeza e beleza escondida das multidões que passam todos os dias por ela. É fazermos de nossos pequenos gestos uma oportunidade para a prática do bem. É compartilhar amor em gestos concretos, que não necessitam de curtidas e comentários no mundo virtual. É sermos um com toda a beleza da vida que revela em cada momento a sempre nova surpresa de sermos amador por Deus.

Enquanto a nossa vida não recuperar o tempo como espaço para a manifestação de Deus, continuaremos a buscar a Sua presença em quintais sem vida e caminhos sem chegada.

Padre Flávio Sobreiro - Canção Nova Formação / Pastoral da Comunicação da paróquia de Sant'Ana - http://matrizdesantana.blogspot.com.br/

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Padre explica o Advento destacando necessidade de vigilância

“Que o Senhor não nos encontre dormindo, mas vigilantes”, diz Padre Mário destacando o Advento como tempo de vigilância e obras de caridade

O termo Advento vem do latim adventum que significa vinda ou chegada e refere-se às quatro semanas antes do Natal. Pelo Advento, nos preparamos para celebrar a primeira vinda do Senhor, ou seja, o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo e a expectativa da segunda vinda do Senhor. Por isso a característica deste tempo, com o qual começa o ano da Igreja, é a penitência como preparação para receber Aquele que está para vir. O caráter penitencial do advento é acentuado pela cor litúrgica, que é o roxo.


O tempo de Advento recorda-nos a realidade de um Senhor que vem ao encontro dos homens e que, no final da nossa caminhada por esta terra, nos oferecerá a vida definitiva, a felicidade sem fim. O tempo do Advento é, também, o tempo da espera do Senhor. A palavra fundamental é “vigilância”: o verdadeiro discípulo deve estar sempre “vigilante”, cumprindo com coragem e determinação a missão que Deus lhe confiou. Estar “vigilante” não significa, contudo, preocupar-se em ter sempre a “alma” limpa para que a morte não o apanhe com pecados; mas significa viver sempre ativo, empenhado, comprometido na construção de um mundo de vida, de amor e de paz.

Pedagogicamente dizendo, advento é um tempo que a Liturgia dispõe à Igreja com a finalidade de preparar os cristãos para a celebração do Natal. Como é natural, trata-se de uma preparação espiritual, incentivando os católicos a preparar o coração e a alma para o encontro com o Senhor. Mas, não é somente preparação do Natal. No caso do Advento, estamos diante de dois aspectos desta preparação: aquela da 2ª vinda e que Paulo escreve aos Tessalonicenses sobre o “Dia do Senhor”, o dia do juízo final, quando nos encontraremos face a face com Deus (1Ts 5,1-6) e, a preparação da 1ª vinda, que celebramos no Natal.

Quanto ao primeiro aspecto do Advento, de preparar-se para a 2ª vinda do Senhor, a vigilância espiritual pode ser considerada a partir do cuidado em vista do encontro final com o Senhor, no Final dos Tempos. Para isso, é preciso ficar atentos aos sinais dos tempos, como o próprio Jesus adverte, e o melhor meio para não se descuidar e nem se distrair dos sinais dos tempos é pela vigilância espiritual. Por vigilância espiritual entende-se o cuidado, para que o nosso espírito não se afaste das coisas de Deus, mas se mantenha fiel ao projeto divino. São muitas as ocasiões para distrair-se das coisas de Deus, podendo nos anestesiar daquilo que é divino e descuidar-nos de alimentar nosso espírito com as coisas do alto.

O Advento é tempo para incentivar com mais intensidade a oração, a leitura da Palavra, a penitência e as obras de caridade. A vigilância é feita preferencialmente com a oração e, a oração nos mantém acordados para o encontro do Senhor, em sua 2ª vinda.

Quanto ao segundo aspecto do Advento, da preparação para o Natal de Jesus, é a alegria da nossa salvação pela encarnação do Verbo de Deus. Neste tempo que a publicidade natalina vem alimentar nosso espírito com “belas” e “boas” mensagens de tempos novos, repletos de paz e de harmonia fraterna, é preciso ficar atentos para não nos alimentar com fantasias e imagens enganosas. O alimento espiritual deste tempo que nos aproxima do Natal não pode se limitar a poesias ou mensagens vazias. Precisa de algo mais sólido como a oração diária, a meditação da Palavra de Deus e as obras de caridade.

A coroa do Advento

Um dos muitos símbolos do Natal é a coroa do Advento que, por meio de seu formato circular e de suas cores, expressa a esperança e convida à alegre vigilância. Na confecção da coroa são usados ramos de pinheiro e cipreste, únicas árvores cujos ramos não perdem suas folhas no outono e estão sempre verdes, mesmo no inverno, ou seja, mesmo em tempos difíceis. Os ramos verdes são sinais da vida que resiste; são sinais da esperança. A coroa é envolvida com uma fita vermelha que lembra o amor de Deus que nos envolve e nos foi manifestado pelo nascimento de Jesus. Na coroa, são colocadas quatro velas referentes a cada domingo que antecede o Natal. A luz vai aumentando à medida em que se aproxima o Natal, festa da luz que é Cristo, quando a luz da salvação brilha para toda humanidade.

Quanto às cores das quatro velas, a mais usada é a cor vermelha. Em alguns lugares costumava-se usar velas nas cores roxa e uma vela cor rósea referente ao terceiro domingo do Advento, quando celebra-se o  “Domingo Gaudete” (Domingo da Alegria), a alegria de quem se sente perdoado. O terceiro domingo se inicia com a seguinte proclamação: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto”. Estando já próxima a chegada do Homem-Deus, a Igreja pede que “a bondade do Senhor seja conhecida de todos os homens”. Atualmente em muitos lugares tem-se usado cada uma de uma cor.

O tempo do Advento quer sensibilizar-nos para a celebração do Natal do Senhor e para a segunda vinda de Jesus. O apelo que Cristo nos lança à vigilância é para ser tomado bem a sério. Que o Senhor não nos encontre dormindo, mas vigilantes. Este é o convite que Jesus nos faz: “Vigiai!” Como os Profetas, Maria, José, os pastores, os Reis Magos… Se vigiamos, o nosso presente e o nosso futuro encontrar-se-ão. É isso a Esperança.

Padre Mário Marcelo Coelho - Canção Nova / Pastoral da Comunicação da Paróquia de Sant'Ana - http://matrizdesantana.blogspot.com.br/

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Papa pede Igreja pobre e que não se vanglorie de si mesma

Na Missa de hoje, Francisco voltou a pedir que a Igreja seja pobre; ela precisar brilhar não com luz própria, mas com a luz de Cristo

Na Missa desta segunda-feira, 24, na Casa Santa Marta, o Papa Francisco voltou a pedir uma Igreja pobre, que não se vanglorie de si mesma. Ele explicou que, quando a Igreja é humilde e pobre, então é fiel a Cristo; do contrário, é tentada a brilhar com luz própria em vez de doar ao mundo a luz de Deus.


As reflexões do Papa partiram do Evangelho do dia, que retrata as ofertas oferecidas ao Templo por pessoas ricas e por uma viúva. Trata-se de duas atitudes diferentes: doar muito e publicamente, ostentando a riqueza; e doar o pouco que se tem, atraindo a atenção apenas de Deus. Segundo o Papa, são duas tendências sempre presentes na história da Igreja: aquela que é tentada à vaidade e a outra que é pobre.

Francisco associou a figura da Igreja à da viúva, já que a essa espera a volta do seu Esposo. A viúva não era importante, seu nome não aparecia nos jornais, não brilhava com luz própria. “A grande virtude da Igreja deve ser de não brilhar com luz própria, mas sim com a luz que vem do seu Esposo. E nos séculos, quando a Igreja quis ter luz própria, errou”.

O Papa reconheceu que, algumas vezes, Deus pode pedir que a Igreja tenha um pouco de luz própria, mas isso se entende pelo fato de que, se a missão dela é iluminar a humanidade, a luz doada deve ser unicamente aquela recebida de Cristo com humildade.

“Todos os serviços que nós fazemos na Igreja são para nos ajudar nisso, a receber aquela luz. E um serviço sem essa luz não é bom: faz com que a Igreja se torne rica e poderosa ou que procure o poder ou erre o caminho, como aconteceu tantas vezes na história e como acontece nas nossas vidas, quando nós queremos ter outra luz que não é aquela do Senhor: uma luz própria”.

Quando a Igreja é fiel à esperança e ao seu Esposo, ela fica alegre de receber essa luz, reiterou o Papa. Fica feliz em ser, nesse sentido, “viúva” à espera, como a lua, do sol que virá.

“Quando a Igreja é humilde, quando é pobre, mesmo confessa as suas misérias – pois todos nós as temos – ela é fiel. A Igreja diz: ‘Eu sou escura, mas a luz vem dali!’, e isso nos faz tão bem. (…) Tudo para o Senhor e para o próximo. Humildes. Sem nos vangloriarmos de ter luz própria, procurando sempre a luz que vem do Senhor”.

Canção Nova, com Rádio Vaticano / Pastoral da Comunicação da Paróquia de Sant'Ana - http://matrizdesantana.blogspot.com.br/

sábado, 22 de novembro de 2014

Evangelho Dominical: O amor é o critério do julgamento

“Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se assentará em seu trono glorioso. Todas as nações da terra serão reunidas diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos, à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e fostes visitar-me’. Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede, e te demos de beber? Quando foi que te vimos como forasteiro, e te recebemos em casa, sem roupa, e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’ Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’ Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: `Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não fostes me visitar'. E responderão também eles: `Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?' Então o Rei lhes responderá: `Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!' Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”. Mt 25,31-46

O critério último da salvação é a caridade

Neste último domingo do ano litúrgico, celebramos a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do universo. Enquanto Rei, e como tal, Jesus Cristo é o pastor que reúne, cuida e conduz às boas pastagens o rebanho de Deus. A sua vida e a sua presença gloriosa (Mt 28,20) iluminam o ser humano, fazendo com que cada um esteja diante da verdade de si mesmo.

O profeta Ezequiel, contemporâneo do profeta Jeremias, foi com os exilados para a Babilônia. Papel fundamental do profeta Ezequiel foi o de exortar o povo para que não caísse no desânimo e confiasse que Deus, que nunca os havia abandonado, iria reconduzi-los à terra de Israel. Diante da infidelidade dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos e abandonaram o rebanho (Ez 34,1-10), Deus mesmo promete apascentar, cuidar e curar das feridas o seu rebanho. Deus, o pastor de Israel, promete, Ele mesmo, reunir as ovelhas que foram dispersas por causa da maldade daqueles que tinham por missão cuidar do povo de Deus.

O evangelho de hoje é uma parábola no contexto do discurso escatológico (24–25). De certa forma, essa parábola resume todo o evangelho e, particularmente, é um resumo dos capítulos que integram o discurso escatológico. A manifestação definitiva do mistério do Reino de Deus se dará em gestos pequenos, simbólicos e significativos. Alguns desses gestos, como os elencados em nosso texto, fazem parte de nossa vida cotidiana: dar de comer aos que têm fome, de beber aos que têm sede, vestir os que estão nus etc. O que é dito no texto vale não somente para os cristãos, mas para todo ser humano que vive neste mundo. É bastante provável que Ez 34,17-22 tenha servido de inspiração para esse discurso escatológico. Lá também encontramos a separação de ovelhas, carneiros e bodes pelo pastor. A separação, ou juízo, é feita em razão da vida vivida na caridade ou pela indiferença diante do sofrimento e necessidade alheios. Somente o olhar penetrante do pastor, do Filho do Homem, que ultrapassa as aparências, pode com verdade conhecer a situação de cada um e o que se é de fato. Se o texto fala de condenação, é para fazer apelo a viver no amor que exige o serviço ao semelhante. O critério último da salvação, que é dom de Deus, não é a fé, mas a caridade.

Carlos Alberto Contieri - Paulinas / Pastoral da Comunicação da Paróquia de Sant'Ana - http://matrizdesantana.blogspot.com.br/

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O que é a solenidade de Cristo Rei?

A solenidade deste último domingo do ano litúrgico da Igreja nos coloca frente à realeza de Jesus. Criada em 1925, pelo Papa Pio XI, esta festa litúrgica pode parecer pretensiosa e triunfalista. Afinal, de que realeza se trata?


Para superar a ambiguidade que permanece, precisamos ir além da visão do Apocalipse, cujo hino na segunda leitura canta que “Jesus é o soberano de todos os reis da terra”. Ora, reis e rainhas não servem de modelo para a representação gloriosa de Jesus. Mesmo que seja para colocá-Lo acima de todos os soberanos. Riquezas, palácios, criadagem e exércitos não são elementos que sirvam para exaltar a entrega de Jesus por nós. Jesus está na outra margem, Ele é a antítese da realeza da riqueza e do poder. Não é por acaso que os evangelhos da liturgia de hoje, nos ciclos litúrgicos A, B, e C da Igreja, sempre nos colocam no contexto da Paixão de Jesus para contemplar Sua realeza.

Jesus foi Rei, durante sua vida, em apenas dois momentos: ao entrar em Jerusalém como um Rei pobre, montado em um jumento emprestado e ao ser humilhado na Paixão, revestido com manto de púrpura-gozação e capacete de espinhos; Rei ao morrer despido e com o peito traspassado na cruz. Rei da paz e Rei do amor sem limite até a morte. A realeza de Jesus é a realeza do Amor Ágape de Deus por toda a humanidade e por toda a criação.

Esta festa é ocasião propícia para podermos reconhecer, mais uma vez, que na cruz de Jesus o poder-dominação, o poder opressor, criador de desigualdades e exclusões, espalhador de sofrimento por todos os lados, está definitivamente derrotado. Isso se deu pelo seu modo de viver para Deus e para os outros. O fracasso na cruz é a vitória de Jesus sobre o mal, o pecado e a morte, por meio de Sua Ressurreição.

Essa festa se torna então reveladora de um tríplice fundamento para a nossa esperança de que as promessas de Deus serão cumpridas até o fim.

O surgimento da matéria e sua evolução, desde o big-bang ─ quando toda a energia do Universo se concentrava em um único ponto menor do que o átomo ─ são o primeiro fundamento de nossa esperança.

Deus é criador respeitando as leis daquilo que criou. Nós nos damos conta de que a soberania d’Ele vem se cumprindo num Universo em expansão, uma vez que a evolução da matéria atingiu seu ponto ômega ao dar à luz Jesus de Nazaré, por meio de Maria, porque n’Ele está a Humanidade humanizada para todos os homens e mulheres, de todas as gerações.

O segundo fundamento é a pessoa de Jesus de Nazaré. O sonho de uma humanidade humanizada ─ tornada aquilo que ela é ─ vem expresso na primeira leitura do livro de Daniel, na figura de um Filho de Homem ─ figura antitética dos filhos de besta, filhos da truculência, dos povos pagãos que oprimiram Israel com seus exércitos. O sonho tornou-se realidade em Jesus Cristo. Ele nos humaniza com a Sua divindade: nunca Deus esteve tão perto de nós, sendo um de nós e sem privilégios; mas também sem crimes nem pecados (cf. epístola aos Hebreus). Jesus nos diviniza com a sua humanidade, tão humano que é, que só pode vir de Deus e ser d’Ele mesmo.

O terceiro fundamento de nossa esperança é a comunidade eclesial de fé, dos amigos e discípulos de Jesus. Olhando essa grandeza, entendemos o sentido último de nosso batismo, pois na realeza de Jesus fomos batizados para sermos reis e rainhas; no sacerdócio de Jesus, para sermos sacerdotes e sacerdotisas; no profetismo de Jesus, para sermos profetas e profetisas, para viver segundo o imperativo da Palavra de Deus revelada em Seu Filho.

A soberania dessa realeza consiste no serviço da cultura da paz e da solidariedade, da compaixão e da fraternidade. O poder que corresponde a essa realeza é o do exercício da autoridade que serve, para fazer o milagre da diversidade tornar-se unidade.

No sacerdócio de Jesus nos unimos à Sua missão de gastar a vida pelos demais. Sabemos por Ele qual o modo de existir que nos conduz à vida verdadeira; qual a religião que agrada a Deus. A esperança posta no sacerdócio de Jesus é também certeza de que a vida gasta por compaixão e solidariedade é a vida feliz e bem vivida.

Nossa esperança é profética, pois a força da Palavra inaugura o futuro. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia…”, cantava Chico Buarque nos anos da ditadura. Era a palavra do poeta vencendo a força bruta. Vivendo o tempo presente no coração da comunidade de fé, que é a Igreja, sentimos que uma força maior se move em nós, nos comove para abrir-nos em direção ao futuro, pois nossa esperança não se funda somente em Deus, sentido radical do futuro ou, como diz o provérbio, que “o futuro a Deus pertence”. Mas é o Senhor mesmo a quem esperamos e quem nos espera no futuro. Isso que é ter esperança: esperar Deus mesmo!

A festa de hoje nos faz contemplar a existência do universo, necessária para que surgisse o grande presente de Deus oferecido a toda a criação, que é Jesus. Desta forma, nossa esperança se sustenta também nos cantos dos bem-te-vis e sabiás; nas rosas e margaridas; nas crianças e nas borboletas; nos homens e mulheres de boa vontade; nas pedras e nos vulcões; nas nuvens, na lua e nos planetas; nas estrelas e nas galáxias. Se existe tudo isso e não o nada, nossa esperança tem pé, cabeça e coração.

Assim, como São Paulo, vivemos na esperança, mas sabendo de seu tríplice fundamento: aquele da evolução do universo, que culminou em Jesus, pelo dom de Maria; aquele que é Jesus, que por nós se doou na cruz, abrindo para nós um modo de viver para Deus e para os outros, que é verdadeira salvação; e aquele que é a Igreja, a nossa comunidade de fé, que nos lança e sustenta na abertura radical ao futuro, esperando Deus que vem e que nos acolhe com amor infinito, por meio do seguimento de Seu Filho, por quem recebemos a vida e a plenitude da graça de Deus.

Padre Anderson Marçal - Canção Nova Formação / Pastoral da Comunicação da Paróquia de Sant'Ana - http://matrizdesantana.blogspot.com.br/

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Por que sentimos preconceito?

Temos a tendência de traduzir o diferente como uma forma de inimizade

“Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem” (cf. Mt 5,44). Talvez este seja o versículo mais desafiador da Bíblia. Jesus propõe o extremo do amor, um amor que é capaz de dar a vida por um inimigo. “E Ele assim o fez” (cf. Rm 5,6-10).

Quem são nossos inimigos? Talvez vejamos como inimigos aqueles que, de alguma forma, declararam guerra contra nós ou nos fizeram algum mal. Mas o texto quer nos mostrar que mesmo estes devem ser amados. Existem formas amenas de inimizade, que são muito mais corriqueiras e, talvez por isso, mais desafiadoras. Uma delas são as diferenças entre nós, pois temos a tendência de traduzir o diferente como uma forma de inimizade.


Existem muitas formas de diversidades: raça, sexo, idade, capacidades naturais, religião, cultura, posição política, condição social, grupo social etc. Poderíamos ouvir Jesus dizer: “Amai os diferentes”.

Existem dois tipos de diferenças fundamentais:

Aquelas que advêm de uma condição natural. Um exemplo fundamental é a raça, a etnia, e podemos colocar aqui a diferença de cultura. Também aquelas que surgem por uma condição limitadora natural, como doenças, condições sociais, idade, capacidades naturais etc. Essas diferenças não carregam em si um valor moral. Elas estão acima de qualquer condicionamento, e qualquer restrição ao diferente fere gravemente a lei do amor. Nesse aspecto, o mais típico exemplo de violação ao respeito ao próximo é o racismo.

Outra forma de diversidade advém de ideias e opções contrárias entre as pessoas. Alguns exemplos são divergências de religião, posição política, grupos sociais e opções morais. Essas, sim, têm significado moral e, por isso, carregam uma complexidade maior na relação entre os diferentes. Jesus nos ensina a amar essas pessoas, o que não significa necessariamente concordar com a ideia ou opção delas. Ele acolhe e perdoa a adúltera, mas é incisivo em determinar seu valor de vida: “Vá e não peques mais” (Jo 8,11). Nessa forma, o desafio é muito maior, porque podemos fazer duas confusões: misturar as ideias com as pessoas, em que os conflitos de pensamentos se transformam em conflito de pessoas, ou estar bem com o diferente, abrir mão de minhas ideias ou, pior ainda, abrir mão do valor dos pensamentos (meus e do outro), considerando tudo igual. Esse é o famoso relativismo, que tenta superar as diferenças abrindo mão da verdade. Nada mais simplório e enganosa solução.

É verdade também que as diferenças nos planos das ideias e opções podem ter um significado comunitário/social que atinge as liberdades ou impõe modelos que ferem a lei natural. Essas divergências acabam por se configurar como verdadeiras ameaças, gerando graves inimizades. Nesse caso, somente o significado mais radical do “amor aos inimigos” é capaz de superar essas disparidades.

Essa tendência de ver a diferença como sinônimo de conflito se agrava na cultura marxista em que vivemos. Nessa ideologia, a diferença é um mal e tem sempre um culpado; e de forma simplória, a culpa é do mais dotado, mais forte e mais rico. O pobre é pobre, porque o rico é rico, e sendo rico, ele é o opressor. Cria-se, assim, uma mentalidade de conflito entre as diferenças humanas. Nessa ideologia, as divergências devem ser superadas pela igualdade que passa a ser um bem social absoluto. Esquece-se de que entre os seres humanos só existe igualdade absoluta na dignidade humana, e fora disso, tudo sempre será diverso. Os pensamentos diferentes sempre existirão (sempre haverá inteligentes e limitados, bonitos e feios, simpáticos e chatos etc). Essa situação só vai se harmonizar na complementaridade, que surge da justiça e da caridade. Existe uma confusão fundamental entre igualdade e justiça, que parecem coisas semelhantes, mas, na verdade, são quase antagônicas.

O fato é que temos uma tendência maligna de entender o “eu” e o “tu” em contraposição natural. Assim, tudo que está fora do “eu” (pessoa ou grupo) se torna um inimigo. Tantas vezes, não é fácil combater em nós esse sentimento. É tão difícil, que ao defender o bem entre os diferentes, fazemos outros inimigos. Jesus nos ensina a superar essa tendência entendendo o outro como uma extensão de nós mesmos, amando-o como nos amamos (cf. Mt 22,39-40). E Ele assim o faz, porque se identifica com todos os que sofrem (cf. Mt 25,40). Somente quando, de alguma forma, nos sentimos presentes no outro, é que vamos saber respeitá-lo como queremos ser respeitados. Ser irmão é isso, é ver no outro uma parte de nós mesmos, e assim sermos capazes de tratá-lo com verdadeiro respeito e dignidade. É interessante ver como os laços familiares favorecem o amor. Neles, a família, especialmente os pais, fazem a experiência de compreender que uma parte deles está no outro, e assim formam juntos um “nós”. Este, quando verdadeiro, não exige igualdades forçadas, acolhe as diferenças e nos torna capazes de dar a vida pelo outro.

É verdade que, tantas vezes nós, cristãos, não amamos direito nem mesmo os amigos. Esse contra-testemunho tem favorecido o surgimento de ideologias que visam resolver as diferenças e os conflitos entre os homens, mas com outros métodos. Jesus nos ensina que a harmonia entre os homens nasce da justiça, que tem como base a verdade e que, se for verdadeira, faz surgir aquela que é a soberana entre todas as virtudes: a caridade. Enquanto nosso Cristianismo fizer de nós pessoas boazinhas, “faremos como os pagãos” (Mt 5,47) e colocaremos em dúvida o bem da fé cristã para o mundo. O que faz do Cristianismo um caminho inigualável é essa busca do significado mais radical do amor, onde um da “raça divina” dá a vida pelos desprezíveis de raça humana enquanto estes ainda eram Seus inimigos (cf. Rm 5,6-10).

André Botelho - Canção Nova Formação / Pastoral da Comunicação da paróquia de Sant'Ana - http://matrizdesantana.blogspot.com.br/

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Campanha Natal Solidário 2014 - Paróquia de Sant'Ana

A Paróquia de Sant’Ana inicia mais uma campanha beneficente “Natal Solidário”, em sua 10ª Edição – Ano 2014. A iniciativa anual mobiliza todos os paroquianos em prol das famílias carentes de Bom Jardim, visando proporcionar um Natal do Senhor de fartura e, consequentemente, de felicidade. Participe doando 1 Kg de alimento não perecível até o dia 17 de dezembro.


A arrecadação dos donativos está sendo realizada na Secretaria Paroquial, na Igreja Matriz de Sant’Ana, ou através dos agentes de coleta credenciados.

No dia 18 de dezembro, quinta-feira, às 19h00, estaremos reunidos na Praça Frei Damião (Rua do Frade) em mais um grandioso momento de partilha e solidariedade.

Seja você também um multiplicador da solidariedade. Compartilhe!

Realização: Paróquia de Sant'Ana / Coordenação: Miriam Arruda / Apoio: Pastoral da Comunicação da Paróquia de Sant'Ana - http://matrizdesantana.blogspot.com.br/

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

CNBB lança ação de incentivo ao diagnóstico precoce do HIV

A CNBB junto do Departamento de DST/HIV e Aids do Ministério da Saúde dará início a campanha de incentivo ao diagnóstico precoce do HIV

No dia 27 de novembro iniciará, na sede da CNBB, em Brasília (DF), a campanha de incentivo ao diagnóstico precoce do HIV, cujo tema é: “Cuide bem de você e de todos que você ama”.

A ação tem por objetivo incentivar a população na busca antecipada do diagnóstico para a AIDS.

Mesmo que não haja sintomas, há uma grande necessidade em alertar as pessoas sobre a doença, informando sobre a importância de fazer o teste do HIV.

O evento contará com a presença do Ministro da Saúde, Arthur Chioro, e do Secretário Geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner.

Os materiais publicitários serão enviados para as dioceses, coordenadores diocesanos e regionais da Pastoral da Aids, para desenvolver ações de incentivo ao diagnóstico precoce.

Esta campanha tem o apoio do Departamento de DST/HIV e Aids do Ministério da Saúde e terá peças publicitárias cartazes, folders, spots para rádio e VT para TV que serão veiculados a nível nacional.

Canção Nova Notícias / Pastoral da Comunicação da Paróquia de Sant'Ana - http://matrizdesantana.blogspot.com.br/